Motoristas aposentados, seu Luis e seu Dutra, junto a uma das viaturas que ainda dirigem

Vários colegas nos perguntaram de onde veio a idéia da Associação dos Aposentados da SPTrans. Surgiu da solidariedade de dois amigos nossos, desses que ajudaram a construir a empresa e, atualmente, ajudam a construir a associação, na qualidade de Conselheiros: são eles o Sr. Benerval dos Santos Dutra (conselho deliberativo) e o Sr. Luiz Lourenço (conselho administrativo).

O seu Dutra começa a entrevista, concedida ao informativo A Gente, contando que, há uns seis anos mais ou menos, foi convocado para trabalhar no senso dos aposentados complementados aqui da SPTrans.

A Gente: O senhor deve ter se deparado com muitas situações que lhe chamaram a atenção.

Seu Dutra: Foram 28 dias de casa em casa, levantando informações. Vimos muita coisa: aposentado que já havia morrido e o sobrinho dele estava recebendo o benefício indevidamente; doentes internados em hospitais e em sanatórios; gente morando sozinha, sem assistência de ninguém; alguns até moravam com a família, mas nem sempre havia quem lhes desse atenção.

A Gente: Dentre essas situações todas, alguma lhe deixou especialmente sensibilizado?

Seu Dutra: Teve gente que eu encontrei em situação muito precária, doente, sem nenhuma higiene e sem ninguém para limpar. Era pior que um mendigo, pois o mendigo está junto com a família, com os amigos, ainda que seja debaixo de um viaduto. Esses, não tinham ninguém.

A Gente: O senhor conseguiu ajudar alguém?

Seu Dutra: Eu me lembro de um caso específico. Um desses nossos ex-colegas recebia um benefício muito baixo do INSS. Mais ou menos uns R$ 600,00 e gastava quase tudo em remédio. Começamos a conversar sobre isso e acabamos vendo que esse benefício não estava correto. Como nós tínhamos um pouco mais de entendimento, percebemos que valia a pena entrar com uma revisão de aposentadoria. E ele entrou. O que faltava era alguém que orientasse esse aposentado.

A Gente: No fim do trabalho, o senhor teve vontade de fazer algo a respeito de tudo isso que o senhor viu?

Seu Dutra: Claro. Não sabia exatamente o que, mas queria fazer alguma coisa. Até procurei alguns colegas de várias áreas aqui da empresa, comentei o que eu tinha visto. Mas, na ocasião, não foi possível fazer nada, não encontrei muito apoio. Somente agora, anos depois, voltei a falar sobre isso e finalmente acabei encontrando pessoas que compartilhavam comigo essa vontade de ajudar os aposentados.  

O seu Luis também ficou indignado com tanta coisa que viu naquele senso. Na qualidade de aposentado, ainda trabalhando, colocando-se no lugar dos companheiros. Mas, também ele, não ficou só na torcida.

A Gente: Faz tempo que o senhor se aposentou?

Seu Luis: Aposentei em 1997. Entraram com a minha aposentadoria sem eu saber. Eu estava internado. Só fui saber quando a esposa foi me visitar e levou um papel do INSS. Com 11 dias, o benefício já estava até na minha conta e, sem saber, ela fez um saque, o que configurou aceitação. Já não podia mais desistir. Aí entrei com revisão, que até hoje não saiu.

A Gente: Há muitos aposentados aqui na SPTrans que continuam trabalhando. Qual seria o motivo?

Seu Luis: É verdade. Aqui na SPTrans, há muitos empregados que já são aposentados pelo INSS e, como ainda trabalham, recebem também o salário da empresa. Se eles forem depender só da aposentadoria, talvez passem dificuldades. Além disso, eles contam com a assistência médica da SPTrans. A pública é deficiente e a particular, muito cara.

A Gente: O empregado, ao se desligar da empresa para se aposentar, perde a assistência médica?

Seu Luis: Quando o empregado que já está aposentado pelo INSS se afasta por doença, a SPTrans banca o plano de saúde por 150 dias.  Depois, a pessoa fica só com o SUS ou parte para um plano particular. Caso ele se desligue, perde imediatamente da assistência médica.

A Gente: Como o senhor acredita que uma associação de aposentados poderia ajudar?

Seu Luis: A ideia de criar essa associação foi ter, no futuro, alguém que olhe pela nossa causa. Não por mim, que já tenho 73 anos. Mas pelos colegas que são mais novos, que estão se aposentando agora e têm muito tempo pela frente. De qualquer maneira, ter alguém que procure saber como eu vivo ajuda muito. Se você não for na minha casa, você não sabe o que está se passando comigo. Mas, se eu tenho um problema, posso ligar para a Associação, explicar o que ocorre e a assistente social vai até lá pra averiguar. E, então, ela pode  me ajudar.

A Gente: Mas, questões de aposentadoria, valor, tempo, etc, uma associação não vai poder resolver.

Seu Luis: São tantas as dificuldades pelas quais passam os aposentados, que a ideia de possuirmos uma associação que olhe por nós é um grande alento. Na aposentadoria ninguém pode dar jeito, a não ser o governo. Mas uma orientação, um apoio, uma mãozinha sempre são bem vindos. A Associação pode ajudar, sim.